Entoa baixinho, quase imperceptível. Nem sei se música será se a maresia que se requebra junto de nós.
Talvez seja música, talvez até não, mas também não foi para isto que vim. Que me importa o que acontece. A aragem corre devagar suave e fresca. Sobre o meu rosto já a sinto escorrer.
Nem sei de onde vens, mas sei que aqui estás, sinto o teu cheiro, algo que nunca senti, mas sei que é ele, doce e suave que se sobrepõe à maresia.
Colocas as mãos sobre os meus olhos e da tua boca vem um suave sussurrar que me faz ficar imóvel, quase ao teu comando. Permaneces com as mãos espalmadas sobre os meus olhos. Sinto que procuras algo, nem sei o que será, nem me interessa saber neste momento.
Subitamente sinto algo suave e leve substituir as tuas mãos. E com firmeza vendas-me os olhos. Mais uma vez impedes que te veja, que saiba quem tu és, empurrando-me para as recordações dos sentidos.
Sinto o teu corpo a vaguear por mim. As tuas mãos que procuram as minhas
Sim, agora ouve-se nitidamente uma melodia que nem percebo de onde possa vir, mas está presente.
Traçaste um círculo na areia, sem sentido, sem que eu perceba onde me conduzes. Sei-o porque sinto as tuas mãos a trespassar alguns grãos para as minhas.
Sussurras-me ao ouvido: “deves-me esta dança”. Sinto as tuas mãos a percorrer as minhas costas.
Não me recorda a promessa, mas sei que a terei que cumprir. Há uma dança que te prometi, em sonhos talvez. Neste círculo talhado com as tuas unhas sinto-me seguro e a melodia leva-me para longe. Para terras que já não visitava há muito tempo, quase as esquecia definitivamente.
Os nossos corpos juntaram-se e as passadas leves vão exibindo um bailado indisciplinado e sedutor. Nem sei para onde te conduzir nem mesmo como o faria.
Prendes-me as mãos e impedes-me de retirar a venda. Permaneces invisível como se de um sonho se tratasse, como se a magia se materializasse nesta praia agora deserta, onde apenas se ouve esta melodia.
Passo a passo, vamos sentindo que esta música nos conduz e, passadas certeiras, que este bailado há muito havia sido ensaiado.
Sinto um leve calor junto do rosto, um toque suave que me surpreende mais uma vez. Sinto este teu suspiro junto de mim, sei que está cada vez mais perto, mais perto de mim.
Se eu te pudesse ver, saber quem és, mas impedes-me a cada tentativa. Apenas conheço alguns surros suaves de uma voz suave e meiga. Uma voz que me é familiar, que custa a identificar, a saber quem é.
Passo levemente as minhas mãos pelas tuas costas e embalo-me na melodia. O tempo parou e daqui nada me afastará. Sinto a cada momento que este era o prometido, aquele que ando em falta.
Dizes-me: “leva-me para lá do mar, através do horizonte, fala-me de amor. Ensina-me os teus segredos mais ocultos.”. Apenas sorrio.
Muito te queria dizer, que sempre aqui estive, há muito tempo à espera de ti. Quero te mostrar o meu mundo, o outro lado da espuma. Hoje eu já saberia dizer onde moram os anjos e em que terras dormitam.
Os teus lábios que se aproximam e professam: “Fala-me de amor”. Que saberei eu desta vil palavra que te possa ensinar. Sinto-me prisioneiro da venda que me colocaste.
O círculo incendeia-se e sinto o calor das chamas junto de mim. Confio na tua mão e nada receio. Já me confunde o calor do teu corpo.
O dia vai nascer, há uma aragem que o denuncia, que o faz espreitar. Que convite maravilhoso à vida e ao esplendor do sol de verão.
Enrola o teu cabelo no meu pescoço, deixa que o sinta e faz com que eu não queira pensar em mais nada. Deixa que te conduzam até mim, que te libertem com um rasgo de sorriso e um leve suspirar.
Como no cumprimento de uma ordem vens devagar ao meu encontro. Deixas que os lábios se toquem. Recusas o beijo, deixando apenas um leve toque que me faça desejar ainda mais este teu beijar. Repetes a intenção e enroscas-te no desejo.
Vens de novo prendendo-me as mãos e beijas sem pecado, deixas que os lábios se conduzam até à exaustão do suspirar.
Os pés que se arrastam vagarosamente na areia e de novo sinto o teu murmúrio: “Fala-me de amor”.
Num círculo na praia um dia te amarei, nem que nos sonhos se rasguem os negros mantos do mar. Será que é amor? Nem sei se chegarei a saber….
Poeta das Marés
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