sábado, 26 de abril de 2014

Um caso especial (conto)

Um caso especial
(Diana Anita)



Na saída do trabalho Marina sempre passa na padaria para comprar um lanche.
Neste final de tarde, não foi diferente:
- Por favor, um croissant de queijo e presunto.
- Oi Marina, é só isso hoje? Perguntou a balconista. Miúda e de cabelos espetados Rita lançou-lhe seu olhar enigmático, exibindo o piercing da língua. - Que tal uma bomba de chocolate para acompanhar?
- Que isso menina, quer acabar comigo? E a minha dieta como fica? Disse Marina sorrindo para sua amiga...
- Você que sabe... Mas te digo, o Ricardo caprichou no recheio hoje. Está uma de-lí-cia!
- Não querida... Obrigada... Amanhã... Quem sabe?
Marina pegou seu saquinho de papel com um único croissant, pagou e se despediu:
- Bye bye Rita... Até amanhã

Foi caminhando para seu apartamento que ficava a apenas algumas quadras de distância de seu escritório de advocacia.
Pelo adiantado da hora todos os outros estabelecimentos comerciais já estavam fechados exceto a lanchonete... Quando Marina virou a esquina, sentiu aquela insegurança que só as mulheres experimentam em um lugar deserto e escuro... Seus pelos da nuca se arrepiaram e Marina olhou para trás desconfiada... Mas apenas Midnight, o gato sobre a lixeira, devolveu seu olhar brilhante...
Marina pensou divertida:
- Nossa estou vendo muito filme de terror... E continuou caminhando apressada em direção ao seu edifício... Mas escutou passos acompanhando os seus e virou-se para trás novamente, não enxergando nada na escuridão da rua estreita... Apressou o passo não conseguindo evitar o sentimento de ansiedade em chegar logo à área iluminada da portaria de seu prédio logo à frente. Quanto mais rápido Marina andava... Mais os passos que a acompanhavam também aumentavam... Assim, quando chegou à portaria iluminada Marina irrompeu pela porta de vidro quase correndo, assustando Seu Antônio que dormitava em sua cadeira giratória atrás do balcão da recepção.
- Marina, o que houve, menina... Está apavorada...
- Ai Seu Antônio, acho que tinha alguém me seguindo...
- Pode deixar que eu vou dar uma olhada...
Seu Antônio foi até a portaria olhou, caminhou um pouco na direção onde Marina disse ter escutado os passos, mas não viu ninguém...
- Bem Marina, a pessoa que estava te seguindo fugiu assustada com minha feiura... Brincou Seu Antônio, para acalmar Marina...
- Ah... Seu Antônio, só o senhor mesmo para me fazer rir... E foi para seu apartamento, pensando se foi só sua imaginação ou se tinha alguém mesmo seguindo-a...
No dia seguinte Marina acordou cedo como sempre e foi para seu escritório para mais um dia de trabalho, tentando resolver o difícil caso em que estava trabalhando... Seu namorado Ary já estava esperando com duas xícaras de café.
- Bom dia, Marina, e levantou-se para dar dois beijos em sua face... Dizendo: - Está cheirosa...
- Bom dia Ary, este café é para mim, querido? E pegou a xícara da mesa...
- Sim querida, como você gosta, com leite e açúcar...
- E o caso da criança problemática, já conseguiu descobrir se o que ele diz é verdade?
- Ah... Sabe como é “né” Marina, para se livrar esses safados falam qualquer coisa... E deu sua risada sarcástica...
- Não fala assim Ary, ele me pareceu bem assustado e nervoso e essas não são características de um assassino sanguinário, como todos estão dizendo...
- Mas Marina, dizer que a casa foi invadida por um maníaco e ele através da telecinese da qual é possuidor conseguiu escapar... É um pouco demais “né”? Coisa de maluco querida... Se ele tem essa habilidade porque nunca apareceu na TV... Sei lá... Nunca foi para um laboratório da NASA... E riu divertido da sua própria piada...
- Na entrevista que fiz com ele Ary, ele me pareceu apenas um garotinho assustado... Disse-me que a mãe tentava esconder as habilidades dele por medo de que alguém o raptasse... Achei-o tão maduro para 8 anos...
- Você está se afeiçoando a ele querida, precisa é ser mãe... E se aproximou abraçando Marina e beijando seu rosto... Eu já disse que me habilito...
- Querido, ainda é cedo para pensar nessas coisas, nos conhecemos há pouco tempo... Saímos apenas algumas vezes... Vamos ver como evolui nosso relacionamento, ok? Aceitou o beijo carinhoso que Ary lhe deu nos lábios, mas disse se afastando:
- Aqui no escritório não querido, pode aparecer alguém... Bem, consegui o direito de conversar com ele mais uma vez... A assistência social está evitando o meu contato com ele... Disse Marina. -Você ainda não conseguiu encontrar parentes do menino?
- Infelizmente não... Parece que eram só os dois mesmo... Ele foi adotado e sua mãe biológica morreu em circunstâncias obscuras... Até hoje o caso está em aberto... Parece que morreu afogada... A mãe adotiva era promoter de festas, bastante conhecida, mas bem solitária... Ele frequentava a escola local, estive lá e a professora disse o mesmo que você: Menino muito inteligente, maduro para a idade, responsável, mas solitário... Boas notas. E só descobri isso... Eu te digo Marina, ele matou a própria mãe, a mãe adotiva e inventou essas histórias para se livrar...
- Não consigo acreditar nisso Ary...
Ary e Marina conversaram mais um pouco sobre esse caso e passaram para os outros que Marina era responsável indicando Ary para as investigações de campo, já que ele era um excelente investigador...
À noite Marina muito cansada do dia estafante no escritório, nem parou na Lanchonete da Rita para o seu lanchinho noturno habitual... Caminhou apressada direto para o seu apartamento...
Quando dobrou a esquina, lembrou divertida da noite anterior, quando imaginou ter escutado passos seguindo-a... Mas parou de rir, quando no trecho mais escuro da rua, ouviu novamente os passos e seus pelos se eriçaram em uma reação natural ao instinto de preservação... Olhou para trás... Mas não viu ninguém... Apenas ouvindo os passos e pressentido a presença sinistra... Andando rápido, Marina passou pela lixeira e seu habitual amiguinho felino acompanhou seus passos com seu olhar brilhante... Sem se alterar. Quase correndo Marina passou direto sem parar para brincar um pouquinho com ele como sempre fazia... Um pouco mais à frente, olhou para trás novamente e se surpreendeu ao ver o gato se levantar assustado e se eriçar todo na posição de defesa e ataque característica dos gatos... Marina parou e virou-se... Mas não conseguiu enxergar o que ameaçava o bichano... Já que a escuridão era total... Midnight deu um salto, tentando escapar do que o ameaçava e sumiu na escuridão... Mas inesperadamente o pobre gato foi arremessado de volta contra a parede, soltou um miado agudo e desesperado e caiu atrás da lixeira, não emitindo mais som algum... Marina não precisou de mais incentivos... Desandou a correr até alcançar desesperada a portaria do edifício... Gritando assustada:
- Seu Antônio, Seu Antônio...
O pobre velho deu um salto da cadeira, e quase caiu sobre o balcão:
- O que foi Marina, você está pálida como um papel... Viu um fantasma?
- Seu Antônio, é o Midnight... Acho que ele está morto...
- Mid o quê? Quem?
- É o gato do prédio no início da Rua seu Antônio... Aquele preto que vive sempre sobre a lixeira...
- Ah... Sei qual é... Muito mansinho...
- Então... Quando eu estava chegando... Alguma coisa o arremessou contra a parede e... Acho que ele está morto...
- Pode deixar Marina, vou lá ver o que houve...
- Não Seu Antônio... Não quero que o Senhor se arrisque... Pode te acontecer alguma coisa...
- Que nada Marina... Deve ser algum moleque das redondezas maltratando o pobre gato... Deixa que já dou um jeito de encontrar a mãe desse pequeno vândalo...
- Não Seu Antônio... Eu ouvi passos... Me seguindo...
- De novo, Marina?
- Sim Seu Antônio... Fica aqui comigo...
Nisso que os dois estão conversando, seu Antônio abraçou Marina para consolá-la... A porta de vidro se abre lentamente e Ari entra assoviando, com aquele seu jeito despreocupado...
Mas ao ver o estado de sua namorada... Descabelada e muito nervosa... Pergunta desconfiado:
- O que está acontecendo?
- Marina se vira assustada, caminha em direção a Ary e pergunta:
- Você viu o que aconteceu? – Estava logo atrás de mim?
- Não vi nada... Mas o que houve?
- Ah Seu Antônio, esse é o Ary, meu namorado...
- Ary, esse é o Seu Antônio, meu amigo aqui do prédio...
- Muito prazer, rapaz... O que aconteceu é que alguém anda assustando a Marina... Eu quero ir lá ver quem é... E ela acha que eu não devo ir...
- O que aconteceu exatamente, Perguntou Ary, impaciente.
- Marina contou toda a história novamente, agora mais calma... E finalizou: - Você chegou logo atrás de mim... Era para ter visto alguém... Ou pelo menos ter escutado alguma coisa...
- Não vi nem escutei nada, mas posso ir lá dar uma olhada... Para te tranquilizar...
- Tudo bem... Então vamos todos, retrucou Marina...
Os três se dirigiram para o local onde ficava a lixeira do outro prédio... Ary ligou a lanterna do seu celular e atrás da lixeira puderam ver o corpinho de Midnight imóvel...
- Sinto muito Marina, sei que você gostava deste gatinho, disse Seu Antônio... Que maldade...
- Bem, não podemos fazer mais nada por ele... Disse Ary.
- Pode deixar que amanhã eu aviso aos donos dele, onde ele está... E o que aconteceu...
Já voltando para o prédio Marinha perguntou com os olhos cheios de lágrimas:
- E o que, exatamente aconteceu, Seu Antônio... Até agora eu não consegui entender...
- Eu te digo, querida... Foi um moleque...
- Deve ter sido isso mesmo Marina. Disse Ary
Marina olhou para Ary, desconfiada:
- Você não viu mesmo nada Ary?
- Não... Não vi.
Na entrada do prédio Marina perguntou:
- Quer subir para tomar um café?
- Ary abriu um sorriso satisfeito e disse:
- Claro... Vou finalmente conhecer seu apartamento... E soltou um comentário desagradável: - A morte do gato, afinal serviu para alguma coisa... Ele não morreu em vão... E riu divertido da própria piada macabra...
- Ary, como você pode dizer uma coisa dessas... Nossa você é um cara legal, mas às vezes esse seu lado sarcástico me assusta...
- Ah... “Vai lá” Marina, desculpa vai... Querida era só um gato... Quem nunca maltratou um gato na infância?
- Eu nunca maltratei... E sei que maltratar animais é um sintoma de esquizofrenia, viu...
Chegando na porta do apartamento, eles entraram e Marina ofereceu:
- Quer tomar um café ou prefere algo mais forte?
- Um vinho desce bem, não acha?
- Claro... Tenho um tinto muito bom...
E foi para a cozinha... Aproveitou e tirou alguns salgadinhos do freezer, aqueceu no micro-ondas e colocou na bandeja levando tudo com cuidado para a sala...
Na sala encontrou Ary instalado no sofá, com a camisa meio aberta e a gravata solta...
Marina depositou a bandeja sobre a mesinha, sentou-se ao lado dele e perguntou:
- Porque você veio aqui Ary?
- Quando eu cheguei lá no escritório a Solange me disse que você tinha acabado de sair... Eu queria te contar a última novidade... Antes que a Mãe Social te conte: - Parece que nosso garoto tem mesmo alguns “poderes” sensoriais... Consegue adivinhar as cartas e movimentar alguns objetos...
- Nossa Ary, então ele está falando a verdade e afinal não é ele o assassino...
- Pelo contrário querida... Já que ele tem esses poderes, pode muito bem ter destruído a casa e empurrado a mãe pela escada... Não é?
- Ary! É claro que não! Ele tentou se proteger arremessando coisas sobre o invasor, que empurrou a mãe dele da escada... Acredito na versão dele... viu...
- Querida não vamos começar novamente essa discussão... Vamos sim brindar a um relacionamento longo e feliz...
Marina serviu o vinho nas taças e entregou uma delas a Ari que disse animado:
- Ao nosso amor e ao nosso futuro...
Marina apenas sorriu encostando sua taça na dele...
Ary colocou sua taça sobre a mesinha e se inclinou, beijando os lábios de Marina, que aceitou o carinho com naturalidade, entregando-se ao beijo...
Ary se animou com a receptividade, retirou a taça da mão de Marina e colocou-a ao lado da sua, abraçando-a com carinho e beijando-a novamente nos lábios, ao mesmo tempo em que tocava seus seios com delicadeza, testando a aceitação de Marina...
Marina suspirou e abraçou Ary, beijando-o na orelha e no pescoço... Dando com isso permissão para mais intimidades...
Ary desabotoou a camisa de Marina olhado maravilhado para o sutiã meia taça que cobria precariamente os lindos seios de sua amada... Olhou Marina nos olhos e disse embevecido:
- Eu te amo... Você está se tornando a minha obsessão...
- Marina sentiu seu coração dar um pulo de emoção com essas palavras carinhosas e retribuiu beijando-o profundamente e desabotoando a camisa de Ary...
Passou a mão por seu tórax peludo e disse em seu ouvido:
- Ah querido, como eu esperei para ouvir essas palavras... Antes mesmo de começarmos a sair juntos eu já me sentia atraída por você...
Marina se levantou retirando a camisa e colocou uma música suave no aparelho de som... Virou-se novamente para Ary e veio caminhando lentamente enquanto desabotoava o fecho frontal de seu sutiã exibindo os mamilos rosados e durinhos de antecipação...
Colocou-se entre as pernas de Ary e ofereceu os seios pedindo mais carinhos... Ary sugou e passou a língua em volta dos mamilos túrgidos, acomodando Marina em seu colo, Marina retirou a camisa de Ary, beijando-o nos lábios sofregamente e dizendo em seu ouvido:
- Vamos para a cama querido...
Ary se levantou com Marina nos braços fortes e se dirigiu para o quarto logo ao lado... Depositando-a com todo o cuidado na cama, retirou-lhe a saia, os sapatos de salto, as meias finas, tudo com muito vagar, ao mesmo tempo que distribuía pequenos beijos e lambidas por toda a área que desnudava... Por fim, deixou-a apenas de calcinha... Marina com o olhar estreitado de desejo, abriu os braços convidando Ary, que retirou as calças e o restante de suas roupas, rapidamente, exibindo-se completamente nu e excitado. Deitou-se ao lado de Marina que sentiu sua proximidade como um choque... Os dois corpos nus e quentes se tocando em toda sua extensão... Beijaram-se longamente, entrelaçando pernas e braços em um abraço de corpo inteiro... Marina sentindo a ereção de Ary pressionando seu abdome liso... Ary se excitando cada vez mais com o contato da língua de Marina em seu pescoço, orelha e rosto. Marina foi descendo a língua pelo peito de Ary alcançando seu mamilo chato e duro de tesão, deu pequenas mordidinhas enquanto estimulava seu amante com a mão... Ary disse com a voz entrecortada:
- Querida, assim eu não aguento... Você está me matando...
Marina apenas sorriu e continuou com a exploração daquele corpo masculino cheio de desejos... Desceu mais a boca pelo abdome de Ary seguindo a flecha de pelos que desce passando pelo umbigo e alcançando seu centro de prazer, beijou-lhe a ponta carinhosamente... Ary gemeu alto, contorcendo-se de prazer... Marina passou a língua por toda sua extensão e aplicou-lhe uma massagem com os lábios que Ary guardaria na memória para sempre, quando percebeu que seu amante estava a ponto de explodir, Marina sentou-se sobre ele, afastou a calcinha e se encaixou em uma única arremetida, fazendo-o suspirar... Ary segurou Marina pela cintura e começou a movimentar-se... Em busca do prazer... Marina inclinou o corpo oferecendo os seios e Ary sugou forte enquanto a penetrava profundamente... Percebendo a excitação de Marina, Ary colocou a mão entre seus corpos suados e tocou-a suavemente no clitóris levando Marina à loucura... Quando percebeu o gozo de sua parceira, não se conteve mais e chegou também ao orgasmo... Em uma exclamação abafada de prazer entre os cabelos de Marina...
Os dois continuaram abraçados por um longo tempo, até que Ary afastou Marina e disse uma de suas frases desagradáveis: - Que gozada fantástica, querida, quem iria imaginar que a Senhorita Pedra de gelo dos tribunais ia se revelar um vulcão na cama, heim... E, como sempre, riu de sua própria piada...
Marina o olhou nos olhos, cobriu-se com o lençol e disse consternada:
- Ary, será que eu estou enganada com você? Será que foi um erro o que permiti que acontecesse?
- Que isso amor, o que foi que eu fiz?
- São essas coisas que você diz... Parece que às vezes você se torna um cafajeste...
- Não querida, me desculpe se disse algo que te desagradou, mas foi um elogio... Nossa estou até agora tremendo... Vê... E pegou a mão de Marina levando-a até o coração, que batia forte e acelerado...
Marina o olhou nos olhos e recebeu o beijo carinhoso de Ary, mas a dúvida continuou em sua mente: “Será que estou apaixonada por um mau caráter ou ele é apenas direto demais como resultado de sua profissão?” Analisou Marina em pensamentos...
- Você vai me deixar passar a noite aqui querida?
- Acho melhor não Ary. Amanhã preciso acordar cedo e ir para o Lar Social onde Henrique está, pois a assistente social me deixou falar mais um pouco com ele...
- “Tudo bem querida”, disse Ary levantando-se e dirigindo-se para a janela, pegou as calças no chão, retirando do bolso o maço de cigarros e um isqueiro descartável... “Mas saiba que minha vontade é ficar aqui, ou te levar para o meu apartamento e não me afastar nunca mais de você...” Acendeu o cigarro e ficou na janela, olhando a noite, pensativo...
- Você fuma... Observou Marina...
- Estou tentando largar... Em consideração a você, pois percebi que você não gosta... Viu como eu te amo... E deu sua risada de lado...
Marina e Ary ainda conversaram mais um pouco sobre os rumos da investigação, até Ary se arrumar e ir com relutância para seu apartamento...
Marina logo adormeceu pensando em seu novo relacionamento... Se estava certa em permitir a evolução deste contato ou se cometeu um erro...

O prédio em chamas e a sensação de estar sendo perseguida fizeram com que Marina corresse assustada para o corredor em busca das escadas de incêndio... Começou a correr pelo longo corredor escuro e à medida em que passava pelas portas dos outros apartamentos escutava os gritos de pavor e o som de objetos sendo arremessados... Correndo e olhando para trás, tropeçou e caiu, virou-se de frente, ouvindo o som de algo arranhando as paredes e aproximando-se lentamente, sentiu uma presença sinistra pairando sobre seu corpo, mas não conseguiu distinguir sua forma... Era como um espectro, uma forma indistinta, escura e aterrorizante, que começou a apertar seu pescoço e tolher seus movimentos... Marina paralisada e sentindo-se sufocar, gritou... E acordou com o próprio grito... O corpo suado e todo embolado nos lençóis cuja ponta se enrolava em seu pescoço... Causando-lhe uma sensação horrível de sufocamento...
Marina desenrolou-se das cobertas e dirigiu-se para a cozinha em busca de um copo de água, esperando com isso dissipar a sensação incômoda de estar sendo observada que persistiu após o terrível pesadelo...
Quando estava voltando para o quarto ouviu alguns ruídos no corredor e olhou pelo olho mágico da porta da sala, sem conseguir ver nada no corredor mal iluminado, chegou a entreabrir a porta e olhar para os dois lados, mas estava tudo calmo e em perfeita ordem...

Na manhã seguinte, quando Marina saiu no corredor para trabalhar viu, assustada, as paredes e portas com horríveis marcas como se algo cortante e metálico tivesse riscado a superfície lisa...
Caminhou em direção ao elevador reparando nos tapetes das portas... Todos fora dos lugares... Resolveu colocá-los nos lugares... Quando estava no final do corredor, próxima às escadas de incêndio achou um isqueiro muito parecido com o de Ary, mas seria o mesmo? Recolheu o objeto e guardou-o na bolsa, achando estranho o local onde estava caído... Retornou pelo corredor silencioso e desceu no elevador que já estava parado e aberto, como se a esperasse...
Ao chegar no térreo, encontrou o seu vizinho conversando com Seu Antônio:
- Eu te digo, Seu Antônio, o prédio foi invadido e vandalizaram todo o terceiro andar... As paredes estão todas riscadas...
- Pois é, Seu Luís, a Dona Maria do apartamento 305 já veio aqui me falar e recebi várias reclamações no interfone... Mas eu estou explicando... Ninguém passou aqui pela portaria... Mas o vidro da janela para a passagem de incêndio estava aberto... Como se tivessem conseguido abri-lo, mas ele só abre por dentro... Isso não é incrível? Esses vândalos mirins aqui da rua estão ficando cada vez mais espertinhos... Ou algum morador o esqueceu aberto... Mas pode deixar Seu Luiz, que eu já tenho uma ideia de qual desses engraçadinhos está aprontando e vou na casa da mãe dele hoje ver o que está acontecendo... E se for mesmo ele, pode ter certeza que a mãe deste moleque vai dar o corretivo que ele merece...
- É Seu Antônio, mas e o prejuízo? O condomínio vai precisar mandar pintar as paredes do terceiro andar...
- Eu sei Seu Luiz vou conversar com a mãe desta criatura e se for mesmo ele, tenho certeza que ela vai fazer o malandro pintar ele mesmo o corredor...
Marina, depois de prestar atenção na conversa dos dois homens, cumprimentou-os e saiu para a calçada iluminada pelo sol da manhã... Foi caminhando pensativa na direção da estação do metrô, dirigindo-se para o Lar Social onde encontraria seu pequeno “cliente”... Quando chegou na estação, aproximou-se da linha amarela pintada no piso, como um alerta aos passageiros, pois a composição se aproximava... e sentiu como se alguma força estranha a empurrasse na direção dos trilhos... Marina fincou o pé no chão agarrada a própria bolsa e fez força para trás... virou a cabeça procurando o que a empurrava... Mas não avistou nada... Havia um círculo vazio ao seu redor e os outros passageiros a olhavam espantados... Marina apavorada sentiu que o que a empurrava estava ganhando a batalha e seus pés foram escorregando lentamente em direção ao trem que se aproximava... Esta luta de forças que levou apenas alguns segundos, para Marina foi como se estivesse acontecendo em câmera lenta... Quando estava prestes a cair para a morte... Uma outra força a empurrou no sentido contrário e Marina caiu sentada na plataforma, no momento em que o trem parou e abriu as portas bem a sua frente... Um senhor que estava próximo ajudou Marina a se levantar e exclamou assustado:
- Nossa menina... Essa foi for pouco... O que houve? Desequilibrou com esses saltos altos?
Marina muito assustada e com olhos cheios de lágrimas disse:
- Não sei mesmo o que houve, mas graças a Deus consegui escapar...
Logo o trem chegou ao seu destino e Marina caminhou apressada ao encontro de Henrique...
O menino a recebeu alegremente:
- Oi, tia Marina, que saudade... Achei que a senhora não ia mais vir me ver...
- Querido, tem só uma semana que você está aqui e esta confusão toda aconteceu...
- É mesmo... Mas parece que já tem um tempão, tia... Deixa eu ir para a sua casa com a senhora... Se eu for não vou mais deixar “Ele” perturbar a senhora...
- “Ele” me perturbar? Ele quem querido?
- A senhora sabe tia, “Ele”... Que tentou empurrar a senhora no metrô... E entrou no seu sono ontem...
- Querido... Como você sabe essas coisas?
- Não sei tia... Eu vejo... Só isso... A senhora sentiu? Eu consegui ajudar dessa vez...
- Você estava no metrô?
- Não tia... Não me deixam sair daqui de verdade... Mas eu consegui ir lá ajudar a senhora...
- Como Henrique? Como você fez isso?
- Não sei tia, mas eu consegui... Era como se eu estivesse me vendo aqui deitado na minha cama... Mas estivesse lá perto de você... E consegui te ajudar... A senhora gostou?
- Claro meu anjo, foi bem na hora... E o que mais aconteceu? Fale-me mais sobre o dia da invasão na sua casa...
- Tia, mamãe não gostaria que eu falasse sobre essas coisas... E eu não estou falando, tá? Mas como a senhora vai ser minha nova mamãe... Acho que não tem problema...
- Querido, eu não posso ser sua mãe... Sou apenas uma advogada, que está tentando ajudar você... Me interessei por este caso... Não sei por quê...
Henrique apenas a fitou com seu olhar profundo e esverdeado, como se conhecesse mais do futuro que todos nós...
Henrique segurou as mãos de Marina e começou a contar sua história... Foi como se ela entrasse em um transe e foi tragada... Podendo ver e sentir, como uma expectadora “in loco”, um de seus pesadelos:
 - “Ele” chegou... Sempre ia lá em casa, conversar com mamãe... Mas mamãe não deixava “Ele” conversar comigo... Mas “Ele” conversava, tia... Mesmo eu ficando no meu quarto o tempo todo... Eu sabia que “Ele” estava lá por minha causa... Era como se ele soubesse de tudo que mamãe não queria que ele soubesse... Na noite em que eu joguei os móveis sobre ele... Ele tentou convencer mamãe a deixá-lo me ver... Mamãe não gostou e eles começaram a brigar... Eu ouvi os gritos e saí do quarto... Quando ele me viu... Nossos olhares se encontraram de uma forma estranha tia... Não sei explicar... Parece que “Ele” estava tentando entrar em mim... Eu me apavorei, tia e comecei a jogar as coisas, mamãe entrou no meio... E “Ele” empurrou a mamãe...
Henrique soltou as mãos de Marina e a conexão se desfez... O menino continuou:
- Ele deixou cair um isqueiro de ouro... E eu guardei... Está escondido tia, não mostrei para ninguém...
Marina ainda meio atordoada, perguntou a Henrique:
- Onde está o isqueiro Henrique? Você pode me dar? Através dele podemos encontrar o culpado...
Henrique fitou Marina com seu olhar esverdeado e profundo e disse:
- Claro tia Marina... Mas a senhora promete que vai tentar ser minha nova mamãe?
- Querido... Prometo que vou pensar seriamente nesta possibilidade, está bem?
Henrique sorriu largo, seus olhos brilhando intensamente... Mas quando se virou para mexer embaixo da cama, em uma caixa... Seu rosto transformou-se em uma máscara de seriedade, os olhos revelando a mesma expressão profunda e sinistra de sempre...
Retirou o isqueiro de dentro da caixa e entregou-o a Marina, já com o sorriso brilhante refeito...
Marina pegou o objeto e reparou nas iniciais gravadas nele... (ARO)... Pensou consternada: “Nossa... Quase Ary... Isso é incrível, mas eu não sei o nome completo do meu próprio namorado...” E sorriu divertida com suas próprias divagações, colocando o isqueiro dentro da bolsa e dizendo ao seu pequeno “cliente”:
- Pode deixar querido, que vou fazer tudo que estiver ao meu alcance  para te ajudar...
Henrique disse, com seu olhar enigmático, abraçando Marina em uma despedida:
- Eu sei que sim, tia Marina...
Marina saiu do Lar Social e foi direto para seu escritório...
Quando chegou e abriu a porta de repente, viu uma caneta que flutuava na direção de Ary que estava sentado na sua mesa... A caneta caiu ao chão com um baque surdo e Ary levantou-se de um pulo...
Marina perguntou:
- Mas o que significa isso, Ary?
- Calma querida, eu posso explicar...
- Então explique-se e rápido, pois isso está me deixando apavorada Ary...
- Bem... Não tem outra forma de dizer, querida... “Eu tenho os mesmos poderes sensoriais que o Henrique”...
- Você o conhece pessoalmente?
- Ainda não tive o desprazer de conhecer a figurinha maquiavélica não...
- Lá vem você com suas frases desagradáveis...
- Bolas, o que posso dizer de um menino que já matou duas pessoas?
- Ary, nada me convence de que ele seja culpado... As provas que estão surgindo estão inocentando o menino...
- Provas? Que provas? Só temos a palavra dele... Em uma história muito mal contada...
- Ary, porque você não me disse dos poderes... Seus e dele... Você já sabia e suprimiu esta informação dos relatórios...
- Bem, eu não queria que você se assustasse e se afastasse de mim... E não queria que você pensasse que ele é inocente, por causa dos poderes, o que de fato aconteceu, né? E eu te digo: Ele não é inocente!
- Nossa Ary... Ele é só um garotinho... Estou pensando seriamente em adotá-lo Ary... Ele ficou sozinho no mundo... Precisava ver o sorriso dele quando me viu...
- Não faça isso querida... Ele é um manipulador... E tem o poder da sugestão... Ele deve estar usando os poderes dele em você... Mas comigo ele não consegue... O espertinho...
- Ary, Ary, se você conhece o Henrique pessoalmente acho bom você falar de uma vez... Chega de omissões e mentiras...
- Já disse que nunca vi o Pestinha... E deu uma risada estranha, como se quisesse esconder os próprios pensamentos...
Marina e Ary discutiram bastante sobre o ocorrido e por fim Ary voltou para seu próprio escritório que ficava no mesmo prédio...
Marina passou a visitar Henrique todos os dias durante a semana que se seguiu, e resolveu levá-lo para casa como uma experiência para a adoção...
Na sexta-feira ao final do expediente Marina foi ao Lar Social para pegar Henrique que não cabia em si de alegria... Iria passar o final de semana com sua pretensa mamãe...
Marina também estava feliz e falou para o menino:
- Querido, vamos dar uma passadinha lá no escritório? Vou pegar alguns documentos que esqueci e quero estudar durante o fim de semana...
- Claro tia Marina, quero mesmo conhecer seu escritório e seus amigos do trabalho...
Marina o olhou espantada com seu jeito adulto de falar... Mas sorriu para o garotinho tão lindo e de olhar brilhante...
Ao chegar ao escritório, quem estava lá... Mexendo em sua gaveta? Ary...
Marina perguntou admirada, sentindo Henrique se escondendo atrás de sua saia... O que foi uma surpresa já que o menino apesar de tudo que aconteceu nunca tinha demonstrado medo:
- Olá Ary... O que está procurando na minha gaveta? E puxou Henrique para dentro do escritório...
Ary levou um susto e disse:
- Nada, nada... Mas quando viu Henrique ficou pálido como se tivesse visto um fantasma...
Henrique puxou a saia de Marina e com um dedinho tremulo apontou Ary e disse:
- Tia Marina, é, é, é, “Ele”!
- Ele quem Henrique?
O homem tia, que empurrou a mamãe da escada...
Marina olhou para Ary, e pela sua expressão percebeu que Henrique falava a verdade...
- Marina eu não empurrei a Simone da escada... Foi esse protótipo do mal, quem fez isso... E riu sarcástico da própria piada... Mas quando viu a expressão séria de Marina parou de sorrir e tentou se explicar: - Marina, meu amor... Eu estava tentando fazer a Simone enxergar o risco que estava correndo, e estava quase conseguindo... Quando ele percebeu que não estava mais conseguindo manipular a mãe adotiva... Fez com ela o mesmo que fez com a mãe biológica... A matou!
Nisso os seguranças que trabalhavam no prédio ouviram a discussão e se aproximaram da porta do escritório...
Henrique com seu olhar suave disse à Marina:
- Tia, ele estava procurando a prova, na sua gaveta...
- Que prova Henrique querido?
- O isqueiro tia... Que eu te dei... Com as iniciais...
Marina, que havia se esquecido do isqueiro pegou ele na bolsa encontrando também o outro descartável achado no corredor do prédio...
 - Ary, diga-me que isso tudo é um engano... Que vc nunca conheceu a Simone, que não conhece o Henrique e que esses isqueiros não são seus...
Henrique perguntou com sua voz infantil:
- Qual o seu nome completo?
- Ora seu pequeno dissimulado, cale-se ouviu bem...
Henrique se escondeu atrás de Marina e os objetos da mesa flutuaram alguns centímetros...
Marina se ajoelhou em frente a Henrique e disse-lhe:
- Calma querido, pode deixar que “mamãe” resolve isso...
E levantou-se olhando firme para Ary e perguntando:
- Diga-me Ary, qual o seu nome completo?
Ary mostrou-se indignado:
- Não acredito que este pequeno maquiavélico está tentando me incriminar... E vocês estão acreditando!
O segurança mais próximo disse irritado:
- Diga logo seu nome senhor... Ou precisaremos olhar em sua identidade?
- Tudo bem, tudo bem, meu nome é Ary Ramos Oliveira... Satisfeitos?
- São as iniciais do isqueiro de ouro Ary...
- Marina esse isqueiro é realmente o meu... Mas ele nunca teve minhas iniciais... Foi o Pestinha quem colocou elas aí... Eu te digo, os poderes dele são muito maiores que os meus, querida... Pense, querida, eu nunca seria capaz de lhe fazer qualquer mal...
- Então diga-me: Por que esse isqueiro descartável estava no corredor do meu prédio, naquela noite Ary?
Querida, eu fui fumar... Abri a janela de vidro que dá para a escada de incêndio... Fumei meu cigarro... E fui para casa... Devo ter deixado o isqueiro cair sem percebe...
- Tia... Foi ele quem estava tentando entrar em seu sonho... Queria ficar em seu apartamento... Eu impedi “mamãe”... E fitou Marina com seu olhar de adoração...
- Sinto muito Ary o isqueiro com suas iniciais encontrado na cena do crime... É prova suficiente para você ser detido para averiguação...
- Nossa... Isso não pode estar acontecendo... Foi esse Filhote de Cruz Credo que pegou meu isqueiro, gravou minhas iniciais e disse que estava na cena do crime, Marina...
- Henrique, ouça o que você está dizendo... Que júri vai acreditar em uma situação tão improvável?
- Marina, tudo neste caso é estranho e improvável, querida... Você não está acreditando na minha versão?
Marina olhou para Ary, com seu jeitão grosseiro e olhou para Henrique com sua carinha de anjo e decidiu-se:
- Seguranças podem levá-lo e chamem a polícia...
- Marina, meu amor... Por favor... Não faça isso... Pense na nossa relação...
- Ora seu cafajeste! Quando penso que acreditei e confiei em você e você estava mentindo o tempo todo...
Marina abaixou-se e abraçou Henrique e com isso não pôde ver seu olhar de triunfo e sua expressão maquiavélica...
- Vamos para casa querido, agora seremos só nós dois... Eu cuidarei de você...
- Eu também cuidarei de você, mamãe... Disse Henrique com seu olhar maldoso...
Levantou-se e deu a mão a Marina saindo e fechando a porta do escritório... Onde os objetos se movimentavam lentamente sobre a mesa em uma arrumação metódica e simétrica...

fim

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