segunda-feira, 25 de novembro de 2013

O Monte

Enquanto as tuas fracas asas se recusavam a voar contra a tempestade a minha mente esvoaçava à tua procura. Por entre as nuvens baixas e carregadas lá ia eu ao teu encontro.

O sol esquecido, o vento que sopra com força. Ai, como queria estar longe, muito longe desta tempestade.

Fecho os olhos devagar, bem devagar, muito devagar….

São poucas as vezes que aqui venho, mas cá estou eu.

Já nem sei porque aqui vim, este lugar já morreu. Fui eu que o matei, ou pelos menos assim queria.

Tenho-me deixado ficar por este convite a falar deste monte, deste lugar esquecido por todos, recordado por mim. Deste recanto onde muitas vezes aqui me venho refugiar do sol ardente que queima lá em baixo, aquele que nos enche a mente de distúrbios diversos, de medos e pavores que se elevam no ar como mantos de fumaça negra.

Bem sabes o que aqui vim fazer, mas por vezes finges não saber. Não faz mal porque também eu em certos dias me esqueço de mim e fico a vaguear sem destino com a cabeça presa entre as pernas e o pensamento longe demais para que se saiba onde está. São estes os momentos que me reservo, são estes onde me entrego por completo a uma oração sem Deus, sem ouvinte. Uma oração que faço a mim próprio como quem tenta se encontrar dentro de si.

Bem sabes o que me vai na alma. Saberás certamente que é neste lugar que me venho encontrar comigo e com esta brisa fresca de verão que me empurra os cheiros distante como se fossem uma miragem apenas.

Desta vez reparaste que a minha cabeça se mantinha bem erguida e os olhos fixavam algo no horizonte ténue da cidade. E tinhas toda a razão, eu resolvi observar o movimento ondulante do calor que emana daquela pequena polis, daquele aglomerado de pessoas, máquinas, sorrisos e choros. Percebi que hoje teria que ver daqui deste lugar a distancia e a pequenez destes lugares como se fossem formigueiros complexos ou completos. Como se fossem ligados por pequenos fios de luz conduzindo uma energia oculta que lhes dá vida e impaciência.

Acabas por ter sempre razão quando me dizes que este lugar é mágico, quando me alertas que cada vez mais me entranho no seu misticismo, na sua áurea de mistério. Só não percebes como ele existe, qual a sua morada, qual o traço que deves procurar no mapa. Mas já pensaste fechar os olhos? Sim, fecha-os devagar. Agora respira fundo. Consegues sentir o cheiro da erva levemente queimada pelo sol? Não o sentes doce a te encher o peito e trazendo-te uma ternura aos olhos?

Esforça-te mais um pouco e liberta-te de tudo o que te prende e voa para aqui. Bem sei o que procuras, mas tens de te deixar levar pela imaginação, deixar fluir pelo teu corpo toda esta energia e planar até este lugar.

Nem precisas de saber onde é, agarra a minha mão e levar-te-ei até ao mais alto dos montes onde poderás te encontrar.

Neste lugar o teu coração palpitará devagar, sem pressa de chegar seja onde for. Neste lugar poderás descansar sem que a negra mágoa te persiga a cada instante.

Olho-te contra o sol brilhante e sou beijado pela leveza das tuas asas que se enroscam em mim. Cada toque faz estremecer em mim este meu palpitar.

A forma como pousas a cabeça no meu ombro e fechas os olhos como te pedi. Os teus sonhos voam longe. São eles que me agarram a mão e me conduzem pelo azul deste céu, pelo infinito deste teu sonho.

Leva-me contigo e mostra-me este teu mundo onde és soberana, onde todos se sentam a teus pés enquanto cantas as mais belas melodias celestiais.

Tamanha ternura vejo em teus olhos meigos e doces, numa inocência nunca antes anunciada. São a expressão destes sonhos, desta verdura, deste alto em que nos refugiamos por breves longos momentos.

Nada nos atinge, nada nos perturba, nada se confunde, apenas as almas que se abraçam num tempo sem contagem, num suspiro.

Pousa a cabeça no meu ombro e repousa. Não tenhas medo, o dia já se vai e nos chama para a noite que se adivinha.

Aconchega-te no meu pescoço e descansa o teu sorriso em mim. Não queiras pensar em mais nada. Encosta o teu cabelo no meu ouvido, como adoro não pensar em nada sentindo apenas a tua seda.

Como me faz feliz este teu sorriso quase assustado. Estes teus lábios que se juntam aos meus, quase sem que percebamos.

Fiquemos assim até que a madrugada acabe…

Poeta das Marés
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